As águas dos municípios de Caldas, no sul de Minas Gerais, e de Santa Quitéria, noroeste do Ceará, locais com presença natural de urânio, foram analisadas cientificamente e os estudos trazem bons resultados. As doses estimadas a partir das concentrações de radionuclídeos encontradas nas águas ficaram bem abaixo do limite estabelecido pelas normas brasileiras.
“Nos cenários estudados, as doses calculadas, a toxicidade química do urânio e os riscos estimados permaneceram abaixo dos critérios de referência adotados, reforçando o papel do monitoramento radiológico na avaliação e prevenção de possíveis impactos ambientais”, explica o biólogo Wagner de Souza Pereira, da Coordenação de Meio Ambiente e Proteção Radiológica Ambiental da Indústrias Nucleares do Brasil (INB). O estudo foi desenvolvido durante seu doutorado em Engenharia Nuclear pela COPPE, centro de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A produção científica reúne trabalhos publicados em periódicos científicos internacionais.
As pesquisas avaliaram águas da região da Unidade em Descomissionamento de Caldas (UDC), em Minas Gerais, e águas superficiais utilizadas pela população em diferentes localidades relacionadas à área de estudo do Projeto Santa Quitéria, no Ceará. Foram considerados pontos em zonas urbanas dos municípios de Santa Quitéria, Canindé e Itatira, e em áreas rurais, incluindo Riacho das Pedras, Queimadas, Morrinhos e Lagoa do Mato. Os estudos consideraram a ocorrência natural de radionuclídeos, as doses decorrentes da ingestão da água e a toxicidade química do urânio. Um dos trabalhos também estimou o risco de câncer ao longo da vida. Nos diferentes cenários avaliados, os resultados permaneceram abaixo dos critérios de referência.
Mergulhando na pesquisa
Os estudos analisaram os principais radionuclídeos naturais das séries do urânio — urânio natural, rádio-226 e chumbo-210 — e do tório, tório-232 e rádio-228. Esses elementos fazem parte de cadeias radioativas encontradas naturalmente no ambiente e podem estar presentes, em diferentes concentrações, nas rochas, no solo e na água.
A partir das concentrações identificadas, os pesquisadores avaliaram a dose efetiva decorrente do consumo da água, considerando critérios adotados pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) e por organismos internacionais como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os dados permitem avaliar de forma integrada os diferentes radionuclídeos presentes nas amostras e compreender o que essas concentrações representam em termos de exposição.
Resultados em Caldas
Em Caldas, o estudo avaliou os pontos de lançamento de efluentes 014, 025 e 076 da Unidade em Descomissionamento de Caldas. A avaliação radiológica considerou conjuntamente os radionuclídeos presentes nas amostras para estimar as doses efetivas anuais.
Os resultados foram de aproximadamente 0,140 mSv por ano no ponto 014; 0,032 mSv no ponto 025; e 0,131 mSv no ponto 076. Todos os valores permaneceram abaixo do limite legal brasileiro de 1 mSv por ano para indivíduos do público, estabelecido pela Norma ANSN 3.01.
Resultados em Santa Quitéria
Em Santa Quitéria, o estudo avaliou pontos de amostragem em localidades como Riacho das Pedras, comunidade localizada a cerca de 40 quilômetros a sudeste da sede municipal; Queimadas, comunidade rural próxima à Fazenda Itataia, onde está situado o Projeto Santa Quitéria; e Morrinhos, assentamento rural localizado aproximadamente 5 quilômetros a oeste da área do projeto. Também foi analisada a região de Lagoa do Mato, distrito de Itatira e sede urbana mais próxima do empreendimento. As amostras foram acompanhadas ao longo do período analisado, permitindo identificar radionuclídeos naturais das séries do urânio e do tório e calcular as doses decorrentes da ingestão da água.
Os valores médios encontrados variaram entre 0,0466 e 0,1085 mSv por ano e também permaneceram abaixo do limite considerado para indivíduos do público.
Mesmo o maior resultado encontrado, de 0,1085 mSv por ano, corresponde a aproximadamente um décimo do limite estabelecido de 1 mSv por ano. Os resultados das águas avaliadas permaneceram, portanto, dentro dos critérios radiológicos considerados na pesquisa.
Avaliação ampliada
Um terceiro estudo ampliou a investigação ao considerar cinco radionuclídeos naturais e avaliar diferentes aspectos relacionados à exposição. Além da dose efetiva comprometida, foram estimadas a toxicidade química do urânio e o risco de câncer ao longo da vida.
Mesmo considerando diferentes pontos de amostragem e cenários de exposição, as doses médias estimadas permaneceram em torno de um décimo do valor regulatório. A toxicidade química do urânio também ficou abaixo dos níveis de referência e o risco estimado de indução de câncer foi próximo de zero.
Para Pereira, os resultados mostram a importância de avaliações abrangentes para compreender as condições ambientais das duas regiões e demonstram como o monitoramento pode contribuir para a produção de conhecimento científico.
“Analisar conjuntamente os diferentes radionuclídeos permite uma avaliação mais abrangente, em vez de analisar isoladamente um único elemento, para compreender de maneira mais completa as características das águas e avaliar o que as concentrações encontradas efetivamente representam em termos de exposição. Os resultados obtidos nos diferentes estudos permaneceram abaixo dos critérios de referência adotados”, afirma.
Além de integrar a equipe da INB, Pereira desenvolve atividades acadêmicas na área de Radioproteção Ambiental. O pesquisador também atua como supervisor de radioproteção do Laboratório de Análise Ambiental e Simulação Computacional da COPPE/UFRJ e participa da orientação de doutorandos na área de Radioproteção Ambiental.