A gestão de materiais radioativos de ocorrência natural, conhecidos pela sigla em inglês NORM (Naturally Occurring Radioactive Material), e os desafios relacionados à mineração de urânio foram os temas centrais da palestra do empregado da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) Ricardo Ferreira Lage, realizada nesta quarta-feira (21/10) durante o Workshop de NORM no Setor de Óleo, Gás e Mineração. O evento aconteceu entre os dias 20 e 22 de outubro, no Rio de Janeiro, na sede do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ).
Promovido pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) e pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), o encontro reuniu representantes do governo, da indústria, da academia e de organismos internacionais para discutir aspectos técnicos e regulatórios relacionados à gestão desses materiais.
Durante a apresentação, Ricardo destacou que na mineração de urânio a caracterização dos materiais é fundamental para determinar os radionuclídeos presentes, suas concentrações e quantidades, além de suas características físico-químicas. A partir dessas informações é feita a classificação do que será produto, resíduo ou rejeito.
“A experiência da INB ensina que é necessário caracterizar para poder fazer a classificação adequada, aplicar controles graduáveis e verificáveis e planejar o ciclo de vida das instalações do início até o final”, afirmou.
A palestra também abordou os controles aplicados às diferentes etapas da mineração, incluindo medidas para reduzir a exposição ao radônio e à poeira, o monitoramento radiológico ambiental e o gerenciamento de rejeitos e efluentes. Ricardo explicou, ainda, a importância do licenciamento nas esferas ambiental, nuclear e minerária, com a atuação dos órgãos responsáveis e o cumprimento dos programas e das condicionantes estabelecidas para cada instalação.
Ao compartilhar a experiência brasileira, o especialista apresentou aspectos relacionados às unidades de mineração de urânio de Caldas, em Minas Gerais, e de Caetité, na Bahia, incluindo os desafios associados ao descomissionamento, à gestão de rejeitos e ao controle ambiental.
Parcerias e desenvolvimento da mineração de urânio
Outro ponto de destaque foi o potencial de desenvolvimento do setor de mineração de urânio no Brasil. Ricardo abordou as possibilidades de parcerias entre a INB e empresas privadas, considerando a flexibilização do monopólio da União estabelecida pela Lei nº 14.514/2022.
Nesse contexto, destacou a capacidade técnica da INB para contribuir com novos empreendimentos, especialmente nas áreas de geologia, com sua extensa base de dados, nas etapas de beneficiamento, licenciamento, proteção radiológica e monitoramento, com a experiência adquirida ao longo dos anos e por contar com os maiores especialistas do Brasil no seu quadro de funcionários.
O empregado também citou o projeto de Santa Quitéria, no Ceará, desenvolvido por meio de uma parceria entre a INB e uma empresa privada, que prevê a produção de fosfato e tem o urânio como coproduto.
As modelagens das novas parcerias estão sendo estruturadas por consultorias contratadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e as projeções de mercado indicam um momento propício no mercado mundial, por conta da perspectiva de aumento na demanda pelo minério. “Existem aproximadamente 80 novos reatores sendo construídos no mundo e a tendência é que haja um aumento no preço de urânio”, disse Ricardo.
O workshop promoveu o intercâmbio de experiências entre profissionais e instituições que atuam nos setores de óleo, gás, mineração e energia, contribuindo para o debate sobre boas práticas de gestão, segurança operacional e desenvolvimento de soluções.